Dom Casmurro


Dom Casmurro de Machado de Assis precisa ser redescoberto. Por favor, apague a séria feita pela Globo, aquela besteira presunçosa que já nasceu morta. Machado de Assis, na verdade, é um gigante. Veja como é simplesmente delicioso a narrativa do, segundo o autor, “homem calado e metido consigo”, Dom Casmurro, nos trechos a seguir: 1. escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao eu quarto e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me a cama... 2) Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu. 3) Eis aqui como, após tantas canseiras, tocávamos o porto a que devíamos ter abrigado logo. Não nos censures, piloto de má morte, n/ao se navegam corações como os outros mares deste mundo. Falando sobe os olhos da menina que ama, Bentinho diz, que são “olhos de ressaca”, naquilo que é o texto mais conhecido da obra: Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me as outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços,aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Lamento que Machado de Assis tenha que ser lido a pulso porque vai “cair no vestibular”. E o que mais lamento é que nenhum cineasta brasileiro fez ainda um filme à altura do livro. Semana que vem vou começar a reler Memórias Póstumas de Brás Cubas, outro livraço do maior de todos os escritores brasileiros.

Um comentário:

Hugo Otávio disse...

Dois livraços mesmo!
Ainda prefiro o Dom Casmurro. Como os tempos mudam mas as atitudes das pessoas insistem em permanecer, principalmente aquelas com os temas de adultério, interesses mesquinhos e egoismo humano!
Paz do Senhor!

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