Profetas e picaretas (Reinaldo Azevedo)


Boa parte da imprensa ocidental, inclusive a brasileira, foi servil à baderna dos islâmicos incentivada por Síria e Irã. O pretexto foram as charges em que Maomé aparece com uma bomba no turbante. Incomodaram-se menos com a bomba do que com a “heresia” de desenhar o profeta. O colaboracionismo com os Estados terroristas variou da compreensão histórica — “O Islã é pacífico; o problema são os radicais” — à autopunição: “A culpa é nossa”. Entenda-se por este “nossa” a civilização ocidental. O militante Edward Said, morto em 2003, foi bem-sucedido.
Editorialistas repetiram, sem crédito, trechos do livro “Orientalismo” assim como os convertidos repetem versos do Corão. O texto é um queixume vulgar de vitimismo fantasiado de pluralismo. É mentira no fato e na ficção: a obra existe para denunciar o “imperialismo”, não para pedir compreensão. Ao retratar o olhar “distorcido” do Ocidente sobre os muitos orientes, vê a cultura islâmica como parte de um Éden conspurcado pelos abusos de um estranho senhor. Impossível não concluir que aqueles povos estavam destinados a algum bem essencial, do qual foram apartados pelo Ocidente, despreparado para os relevos de cultura tão diversa. Said, a exemplo dos incendiários, acredita que os ocidentais agem, e os vários orientes apenas reagem. Para ele, nós os vemos como uma charge. As fontes de sua pesquisa, mesmo distorcida, ele as colheu em bibliotecas ocidentais: trata-se de livros proibidos em países islâmicos. Culpa nossa?
Não esperem que eu censure desenhistas para provar que sou ponderado. Penso nisso tão logo os bárbaros se recolham. Prefiro um mundo em que não-cristãos sejam desobrigados de cuidar da Cruz. Prefiro um mundo em que não-judeus se abstenham de zelar pela Estrela de Davi. Prefiro um mundo em que os não-islâmicos se dispensem de reverenciar Alá. Prefiro um mundo em que um ateu seja livre para pregar em terras cristãs. Prefiro um mundo em que um judeu possa renegar a sua origem em terras judaicas. Prefiro um mundo em que um descrente de Alá possa exercer a sua descrença em terra sagrada. E aí?
Minhas preferências definem uma hierarquia e uma superioridade ética. A democracia ocidental, Israel incluído, é superior, como civilização, às teocracias ou quase-teocracias islâmicas. Ainda que as tais charges sejam uma generalização imprópria, não me venham dizer que não informam o espírito de um tempo. O “martírio” dos homens-bomba, sob o olhar complacente ou o incentivo homicida de governos, não foi uma invenção de artistas ou de Israel.
Quando a milícia talibã dinamitou os Budas Gigantes de Bamiyán, no Afeganistão, onde estavam os “pacifistas” islâmicos, que não protestaram? Qual foi a censura que lhes fez a Liga Islâmica Mundial? Que esforços empreenderam para conter seus parceiros de fé em Darfur, no Sudão? Tentou-se transformar em mero conflito étnico o que era violência religiosa: a milícia que estuprou, torturou e matou cristãos o fez em nome de Alá. O Corão não os autorizava? Mas por que o silêncio covarde e cúmplice? Nota marginal: Lulinha Paz e Amor também se negou a condenar o governo do Sudão, parceiro da violência: queria o voto do país para integrar o Conselho de Segurança da ONU. Lixo moral.
Davi Horowitz evidencia a aparentemente exótica aliança entre a esquerda e o radicalismo islâmico no livro “Unholy Alliance: Radical Islam and the American Left (Regnery Publishing)”. O principal elemento de aproximação é o antiamericanismo, o que já levou um delinqüente como Hugo Chávez a trocar piscadelas com o Irã. Mas há mais. Quem não se lembra dos tempos em que se dizia que o socialismo era bom, a URSS é que era o problema? O islamismo tomou o lugar do comunismo na militância esquerdista. Sempre há alguém pedindo que não confundamos o mau Islã com o bom: em nome deste, toleram-se os crimes daquele. Algozes viram vítimas. Matam, mas têm a prerrogativa da denúncia.
A propósito: os grupos terroristas Hamas e Hezbollah se ofereceram para mediar os conflitos. Conhece-se um credo pela reputação de seus moderados...

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