Vendo os defeitos


Não é preciso virtude para enxergar os defeitos de nossos cônjuges. Até o ser mais babaca sabe criticar o cônjuge, os pais, os irmãos, os filhos. É preciso virtude, isso sim, para enxergar os defeitos de um desconhecido. Ou para ver as qualidades de quem a gente diz "não gostar". Quem nos vê pela primeira vez pode se enganar redondamente. Somente a convivência se encarrega de desfazer toda e qualquer ilusão a nosso respeito. O verdadeiro teste de caráter é o dia-a-dia, não um abraço, um bom-dia, um e-mail gentil. Até os canalhas e os psicopatas tem seus momentos de candura.Conviva, mesmo que seja por poucos anos, com a mulher mais sexy do planeta ou com o homem mais bonito do universo e qualquer um terá uma infeliz surpresa: a aparência e seus correlatos nunca deveriam ter sido a principal causa do relacionamento. Os bonitos podem ser tão ou mais feios que os feios. Os magros podem ser tão ou mais chatos que os gordos. A catástrofe só é maior quando se deixa o cônjuge (que tinha todos os defeitos do mundo, descobertos, infelizmente, somente minutos depois da lua-de-mel) para buscar a tão propalada felicidade num novo enlace romântico com um completo estranho (para mim, uma amizade com menos de cinco anos está inscrita nesta categoria). Eu não dou uma pataca furada num relacionamento virtual. É muito difícil descobrir quem de fato é o outro através de orkuts, e-mails, torpedos. Talvez seja por isso, gente, que foi inventado a amizade, o namoro, o noivado e, somente depois, o casamento! Millôr Fernandes disse: “Eu admiro todas as pessoas que eu não conheço”. Millôr está certíssimo. Modelo só começa a virar gente quando sai da revista e passa a ser a primeira pessoa que se vê de manhã e a última que se vê a noite. Multiplique isso por cinco, dez, vinte anos e você terá a dimensão da realidade: é preciso amor – e nada mais o substitui - para admirar quem se casou conosco.

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