O cadáver de Ipanema (Diogo Mainardi)


Pode haver algo melhor do que andar de bicicleta com dois filhos, no domingo, na orla de Ipanema, olhando para o mar e sentindo o odor de um cadáver putrefato? Foi o que aconteceu comigo na semana passada. O cadáver putrefato encontrava-se no banco traseiro de um carro prateado, estacionado no canteiro central da Avenida Vieira Souto, à altura do Posto 9, a menos de 100 metros de onde eu moro. O porteiro de um prédio vizinho, um dos primeiros a chegar ao local e analisar o cadáver, com o rigor de um perito forense, com a argúcia de um inspetor Grissom, informou-me que o corpo pertencia a um jovem negro de jaleco, amordaçado e com as mãos atadas.
Fiquei o resto do dia matutando sobre o crime. Elaborei uma série de teorias a respeito do jovem negro de jaleco. É o grande passatempo carioca, que desperta a fantasia e ocupa alegremente nossas tardes de domingo: quem é o morto? Só consegui obter a resposta exata algum tempo depois, numa matéria de O Globo. Nome: Rômulo Luiz dos Santos. Idade: 18 anos. Antecedentes penais: roubo de carro e assalto a mão armada. Causa mortis: ferida com objeto contundente. Exame do corpo: sinais de tortura, com queimaduras e pancadas na cabeça.
O jaleco? O jaleco era da proprietária do carro prateado, uma médica assaltada na semana anterior, em Botafogo.
Na segunda-feira, o cadáver do Posto 9 cedeu o lugar ao cadáver da Via Dutra. O crime da Via Dutra já foi descrito em todos os seus detalhes. Sébastien Gressez era músico. Percorria o Brasil com um grupo de teatro, apresentando-se gratuitamente em comunidades carentes. Um pneu furado o obrigou a parar no acostamento da estrada. Dois assaltantes chegaram de motocicleta. Queriam seu telefone celular. Sébastien Gressez reagiu fechando a janela do carro. Um dos assaltantes o baleou na frente de sua mulher e de sua filha de 3 anos. Ele morreu a caminho do hospital.
O assassinato de Sébastien Gressez foi assombroso. Ainda mais assombroso é o perfil de quem o assassinou. De acordo com a polícia, Sébastien Gressez foi morto por seu xará Sebastião Gama de Paula, conhecido como Tindoco ou Bandido das Cavernas. No passado, ele já foi preso por homicídio. Condenaram-no a oito anos de cadeia. Depois de ter cumprido um sexto da pena, ganhou a liberdade condicional. Está foragido desde 2004. Cometeu mais sete assassinatos no período. Sete.
Vamos lá:
• Um assassino pode ser condenado a uma pena de somente oito anos.
• Um assassino pode ser solto depois de passar somente um ano e meio na cadeia.
• A liberdade condicional é, na prática, incondicional. Só no Rio de Janeiro há 6.254 foragidos. Quase todos se aproveitaram do relaxamento da pena.
• Um psicopata que cometeu sete assassinatos está livre para cometer o oitavo.
Sabe o que isso significa? Isso significa que o próximo cadáver a animar as tardes de domingo tem tudo para ser o seu ou o meu.

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