Um sôco me fez ver estrelas às três horas da tarde



Quando eu era menino, minha geração era fascinada pelos filmes de Bruce Lee. Saíamos do cinema dando golpes nos amigos e, não raro, a brincadeira virava arenga mesmo, “na vera”. Alguns meninos compravam revistas de karatê (ou era kung-fu?) e a gente montava academias clandestinas para aprender a arte oriental. O treinamento consistia de quebrar cacos de telhas com as mãos. Começávamos quebrando um e evoluíamos para dois, três e até quatro de uma só vez... era a glória! Outro treinamento era o desferir golpes em inimigos imaginários, com o grito característico. Ráaaaaaaaaa! Pernas flexionadas, braços em posição de ataque, mãos espalmadas! U-Ráaaaaaaa! Tudo correu bem para mim até o dia de aplicar meus conhecimentos. Estávamos, eu e alguns colegas, numa garagem abandonada, brincando, quando um grupo rival chegou. Coube a mim enfrentar um menino mais velho que eu uns três anos. Parti para o combate confiado em meu sofisticado treinamento. Ele não entendia nada de kung-fu (ou seria karatê?) e, quando me viu pronto para o combate, partiu para mim dando socos a esmo. Resisti quase um minuto, até desferi alguns golpes no meu oponente, mas sem a força e a objetividade suficientes para vencê-lo. Por uma fração de segundo, perdi a concentração e o punho dele encontrou meu olho (não me pergunte qual, até hoje também não sei) e fui nocauteado. Era umas três horas da tarde, o sol flamejava, mas eu vi estrelas. Um soco no olho não dói tanto assim... Creia, eu levei um! Mas, deixa a gente momentaneamente cego. O mundo escurece, ouvimos tudo, mas não vemos nada. Em meio às trevas, umas luzes começam o pipocar como “fleshs”. São as estrelas! Depois dessa derrota, a primeira coisa que fiz foi abandonar a academia informal de karatê. Depois, passei a me dedicar aos estudos. Minhas notas melhoraram consideravelmente. Passei a vencer, só que usando o cérebro, e não os punhos. Toda vez que leio “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”, me lembro do soco que levei naquela construção abandonada e de como minha vida mudou. Hoje, dou graças a Deus pela primeira e última tentativa de ser um pugilista. Fui derrotado, graças a Deus, na minha pretensão de ser um clone de Bruce Lee. Fico arrepiado pensando em como minha vida poderia ter seguido outro rumo se eu tivesse me sagrado campeão. Percebo, hoje, que aquela derrota me lançou no caminho da vitória. Ráaaaaaaa!

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